Mártir é aquele que valoriza mais a fidelidade do que a liberdade.
O holandês Anne van der Bijl,
conhecido no mundo inteiro como Irmão André, 75 anos, casado, cinco filhos
(três deles missionários) e quatro netos, é um homem especial e exerce um
ministério sui generis.
Tem uma paixão enorme por aqueles que
não conhecem as boas notícias propiciadas pela morte vicária e pela
ressurreição de Jesus, sejam judeus, palestinos ou árabes: “Eu quero ser uma
ponte a todos os que ainda têm de compreender o maravilhoso perdão de Deus”.
Para abastecer sua alma, seu entusiasmo e sua ousadia, lê cuidadosamente a
Palavra de Deus e ora todos os dias. Foi ele quem organizou há quase 50 anos a
Open Doors With Brother Andrew (1955), uma agência missionária dedicada
primariamente à distribuição da Bíblia em países fechados ao evangelho, com
obreiros em quatro continentes, inclusive no Brasil www.portasabertas.org.br.
Seu primeiro livro, O Contrabandista de Deus, acaba de ser lançado em hebraico.
Seus outros livros traduzidos para o português são: Desafiando os Limites da
Fé, Não Há Portas Fechadas, E Deus Mudou de Idéia e Edificando um Mundo em
Ruínas. No momento, Irmão André está trabalhando em mais um livro, cujo título
deverá ser A Guerra Santa de André. Ele explica: “Nós precisamos entrar na
jihad — guerra santa — contra o mal e a injustiça onde quer que eles estejam”.
Esta entrevista foi realizada em Águas de Lindóia, SP, por ocasião do Congresso
da SEPAL, no início de maio. Por exercer um ministério interdenominacional, Irmão
André prefere não filiar-se a uma denominação; participa de uma comunidade
evangélica “moderadamente carismática” na Holanda, onde vive.
Ultimato — Quantos exemplares da
Bíblia o sr. e sua equipe introduziram ocultamente para os países da antiga
URSS durante a Guerra Fria?
André — Não tenho números exatos. Mas
posso falar em muitos milhões. Fizemos isso durante quase 40 anos.
Ultimato — No mundo hoje, ainda há
necessidade de contrabandear Bíblias?
André — Acabo de ler na edição
holandesa de nossa revista Portas Abertas que no Usbequistão exemplares da
Bíblia foram incinerados recentemente. Alguns países do antigo bloco comunista
são tão contrários à Bíblia que a confiscam dos cristãos e a queimam. As
sociedades bíblicas ainda não conseguiram se estabelecer em bom número desses
países. Em alguns lugares do mundo, a prática de copiar as Escrituras a mão
ainda é comum. Daí decorre que continua necessário fazer chegar a Palavra de
Deus até lá do nosso modo. Mas eu não gosto de usar a palavra “contrabando”.
Prefiro dizer que nós introduzimos a Bíblia nesses países de modo “não
oficial”.
Ultimato — A
editora americana Crossroad acaba de publicar o livro The Catholic Martyrs of
the Twentieth Century, de Robert Royal. Há tantos mártires assim no século 20
a ponto de encher as páginas de um volumoso livro?
André — Não conheço este livro e
gostaria de lê-lo. Sou fã do Livro dos Mártires, do historiador e martirólogo
inglês John Foxe, publicado em 1563. Ele conta a história dos mártires
principalmente da Idade Média. Mas eu discordo da definição que se dá hoje em
dia à palavra mártir. Nem todo cristão palestino ou israelense vítimas de
ataques terroristas são mártires. Prefiro dizer que são vítimas, o que é muito
diferente de mártires. Entendo que mártir cristão é aquele que é preso,
ameaçado e torturado por causa de sua fé pessoal em Jesus Cristo, a respeito do
qual dá veemente testemunho por meio de palavra e obras. Quando lhe oferecem a
liberdade em troca da negação de Jesus, ele prefere continuar preso e morrer.
Ultimato — O que o sr. chama de
“Igreja Sofredora”?
André — Faço diferença entre “Igreja
Sofredora” e “Igreja Perseguida”. A primeira diz respeito a cristãos que estão
debaixo de sistemas tanto políticos como religiosos que impedem o pleno
funcionamento de uma igreja. Essa comunidade não tem liberdade de evangelizar,
pregar, distribuir Bíblias, realizar ministérios especiais com jovens e
crianças etc.. Se essas limitações forem desrespeitadas, os crentes serão
punidos. Já a “Igreja Perseguida” é aquela cujos fiéis são na verdade
hostilizados e aprisionados e eventualmente mortos. O contato com esses irmãos
é muito difícil. Portas Abertas, porém, trabalha com ambas, a “Igreja
Sofredora” e a “Igreja Perseguida”.
Ultimato — Em suas andanças pelo
Oriente Médio, o sr. teria visitado o Iraque? Em algumas dessas visitas teria
se encontrado com o único cristão membro do governo, o
ex-vice-primeiro-ministro iraquiano Tariq Aziz, hoje em poder dos americanos?
André — Não, nunca me encontrei com
Tariq Aziz. Quando estive no Iraque me reuni apenas com evangélicos e preguei
nas igrejas deles, em mais de uma denominação. Alguns cristãos iraquianos são
“cristãos culturais”. Não os estou desprezando; o que quero dizer é que eles
não são cristãos por escolha mas por nascimento, por terem vindo ao mundo numa
família cristã. Assim como há muçulmanos nominais, há também cristãos nominais.
Não sei se o ex-vice-ministro Aziz conhece o evangelho. Certa vez, ele recebeu uma
equipe de jornalistas estrangeiros, entre os quais havia algumas pessoas de
Portas Abertas, e tentou demonstrar que o regime iraquiano era tolerante e que
Saddam Hussein era um cara legal. A prova disso seria a presença de cristãos,
como ele próprio, nos altos escalões do governo.
Ultimato — Os cristãos iraquianos
eram perseguidos no governo de Saddam Hussein?
André — Certamente que os cristãos
sob o antigo governo tinham de viver sob terríveis restrições. Posso citar o
caso particular de um jovem que foi estudar teologia num país ocidental com a
ajuda da nossa Missão e com o solene compromisso de voltar para o Iraque depois
de formado. Mas a situação piorou tanto que ele acabou não retornando. Nos
países muçulmanos há muita flutuação. Dependendo das alianças políticas, o
trato dispensado aos cristãos tanto pode melhorar como piorar. Muitos cristãos
acabam fugindo do país, o que eu sempre considero uma perda. A fuga deles
significa que não mais exercerão qualquer influência para mudar o regime. A mensagem
de Portas Abertas é: “Tente permanecer o máximo que puder agüentar. Se você
discorda do regime, tente mudá-lo de dentro.”
Ultimato — Nos últimos dez anos os
missiólogos procuraram fazer uma relação dos povos ainda não alcançados ou
pouco alcançados pelo evangelho. Daí surgiu o mapa do Cinturão da Resistência,
também denominado Janela 10/40, onde se encontram quase todos os países
muçulmanos. As intervenções bélicas de nações cristãs no Afeganistão em 2002 e
no Iraque em 2003 vão comprometer o projeto de evangelização conhecido como “o
último grande desafio missionário da história”?
André — Em ambos os países,
Afeganistão e Iraque, o evangelismo está quase impossível neste momento. Na
maioria dos 60 a 70 países do Cinturão da Resistência o evangelismo aberto é
absolutamente proibido. Um muçulmano não pode por força da lei tornar-se
cristão. Mesmo no Egito, uma igreja copta pode promover uma grande reunião em
seu templo, mas com a presença só de cristãos coptas. O sacerdote deve
permanecer na porta do templo para impedir a entrada de muçulmanos, porque, se
estes entrarem, o primeiro a ter problemas é o próprio sacerdote. Se o
muçulmano aceitar o evangelho, o sacerdote pode perder sua liberdade, sua
licença para pregar e até a vida. O evangelismo de cristãos nominais é possível
(claro que eles também necessitam do evangelho), mas nunca entre a população
muçulmana.
Ultimato — Como o senhor avalia a
anunciada “invasão” evangélica no Iraque para levar suprimentos, medicamentos,
Bíblias e a pregação evangélica, por parte de americanos e sob liderança
americana, depois da vitória sobre Saddam Hussein?
André — Sou muito crítico em relação
a isso e hesito em considerar essa idéia. Não posso acreditar que o esforço
será bem-sucedido. Você não pode confortar um povo que você mesmo acabou de
vencer numa guerra. Depois da derrota, então vem a ajuda americana... Os
iraquianos provavelmente vão aceitar, porque estão em necessidade extrema. Mas
isso não quer dizer que vão aceitar Cristo e crer nele. Certamente eles não
querem “o Cristo americano”... O Afeganistão e o Iraque jamais encaram os
americanos como libertadores, por mais que a CNN queira que acreditemos nisso,
mas como forças de ocupação. Não há muito amor entre os dois lados. Aprecio o
esforço de “controle de danos” — distribuição de alimentos e roupas, e
reconstrução — mas se não manifestarmos o caráter de Jesus em nossa abordagem,
não seremos realmente capazes de ganhar pontos e sermos aceitos. Pelo menos até
o presente momento. Pode mudar mais tarde. Mas sou bastante cético de que isso
funcione.
Ultimato — O senhor é a favor da
criação de um Estado palestino?
André — Não vejo como possa haver um
Estado palestino. O país é muito pequeno, o fosso entre palestinos e
israelenses é muito profundo, o ódio recíproco é muito grande e a situação está
assim há muitos anos. Em nossa geração, não veremos um Estado palestino, na
forma como concebemos hoje um Estado, com direitos, fronteiras, exército etc.
Ultimato — O senhor acha que os
cristãos devem apoiar Israel contra os palestinos?
André — Essa é uma questão política e
eu não gosto dessa polarização. Portas Abertas optou pelo Corpo de Cristo. E o
Corpo de Cristo está parcialmente na comunidade judaica — os judeus
messiânicos, que vivem sob intensa pressão e oposição de seu próprio governo.
Mas está principalmente no setor palestino da população. Seja qual for nossa
visão profética, por favor, não vamos confundir profecia com especulação. Não
acredito que é do caráter de Deus cumprir profecia com bombas, tanques, F-16 e
helicópteros apaches e matar pessoas quase aleatoriamente. Além disso,
precisamos rever nosso estudo sobre profecias, para ver se podemos
interpretá-las de modo consistente com o caráter de Deus. E, então, chegaremos
a uma conclusão diferente daquela que a maioria dos cristãos conservadores e
fundamentalistas têm em relação a Israel. Eu não posso apoiar Israel como é
agora, como Estado e potência militar, mais ou menos uma filial dos Estados
Unidos da América que possibilita a presença militar americana naquela área. O
governo americano está sempre à caça de armas de destruição em massa. Ora,
Israel está cheio delas, e todo mundo sabe disso. Não é justo. Não quero tomar
partido, mas eu vejo crianças palestinas jogando pedras — nunca o fazem em Israel,
sempre em seu próprio território — e os israelenses reagindo com tiros. Então,
eu assumo abertamente o lado palestino. Fico com as crianças palestinas, na
esperança de que os israelenses parem de atirar. Nem sempre eles param — me
vejo como que em meio a intenso tiroteio, com aperto no coração, rodeado de
pessoas feridas. Conheço o cheiro do gás lacrimogêneo, pois já fui vítima dele
muitas vezes!
Ultimato — Qual a sua opinião sobre o
muro de 350 quilômetros que está sendo levantado entre Israel e Cisjordânia?
André — Não vai funcionar nunca. Será
outro muro de vergonha, como foi o que havia em Berlim e como é o que existe em
Chipre, separando cipriotas e turcos. Por que fazer isso de novo? Esse muro
pode conseguir isolar um grupo de palestinos, mas ainda há mais de 1 milhão de
israelenses árabes no interior de seu país. Repito, temo que muitos cristãos
tomem uma posição radical baseados em sua interpretação particular da profecia.
Temo que eles apoiem o militarismo e a força mais do que o espírito de Cristo,
que entregou sua vida a eles.
fonte ultimato.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário